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Posts Tagged ‘Balada’

O Outono já tinha começado e os dias, agora mais pequenos, davam-me pelo ombro.

Tinha acabado de por os pés na Via Appia Antica, que, outrora, foi percorrida por centuriões que conduziam os seus exércitos para a guerra; por quadrigas em fuga dos violentos circos; por gladiadores que não queriam ver o polegar apontar para o chão…

Atrás de mim, pouco mais de meia centena de valentes soldados Atreides, emprestados pelo justo duque Leto Atreides.

Organizados e disponíveis, estes bravos soldados mantinham-se atentos como se, a qualquer momento, esperassem ser atacados por milhares de insidiosos Harkonnen ou violentos Sardaukar imperiais; nas suas túnicas militares o falcão dourado, símbolo e brasão da família Atreides, brilhava com os raios de uma lua que sobressaía do céu de tons avermelhados.

Ouvi um ligeiro tilintar; com um golpe de rins curvei-me para apanhar a moeda de 50 cêntimos que caíra e, o silêncio da noite, foi cortado pelo protesto das minhas vértebras.

No mar, agitando levemente as águas e rasgando um pedaço do vermelho céu, dois navios viking descontinuavam a linha do horizonte.

E eu aguardei. Naquele silêncio… shhhhhhhh…

E então ali estava ela! A menos de 800 metros via-a! Oculta por um enorme carvalho; a não mais que 120 metros, via-a!

Sereias camonianas começaram um canto. Um encanto…

As asas dela, brancas, elevaram-na acima da copa da majestosa árvore; os meus Atreides permaneciam estáticos e mudos, mas, à voz do seu capitão, activaram os seus escudos individuais e, envolvidos nas luzes do azul dos seus escudos laser, radioactivos, iluminavam a Via Appia, imitando milhares de besouros azuis. Se alguém, com uma espada Jedi os atacasse, dar-se-ia a fissão nuclear.

E começaram os silvos.

E chamou-nos.

Chamou por nós!

A sua voz, clara e imaculada, sussurrava murmúrios contagiantes… hipnotizantes.

Os Atreides, com as suas armas laser, estavam habituados a vaporizar Ordos e Harkonnen.

Não Hoje!!! Hoje não…

Hoje permaneciam estáticos, paralisados, hipnotizados.

As sereias continuavam o seu canto e ela, agora, pairava sobre nós.

Aquela noite de Outubro estava vermelha.

E de repente…

— Falhou a luz! – alguém gritou entre os Atreides.

— Sim, falhou a luz – confirmou o capitão, como se o comentário do soldado necessitasse de ser autenticado.

A Via Appia mergulhou numa escuridão que levou os navios viking, que ocultou o céu escarlate, que calou as sereias. E que a levou a ela!

Desde aquela noite de Outubro só voltei a ver a velha Via Appia Antica, construída por romanos, com os primeiros raios de sol de uma Primavera já madura.

Mas nunca…!

Nunca mais as sereias cantaram!!!

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