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O Comboio

O Homem viajava sentado e equipava a rigor.

A bike, com quadro negro e com referências ao ‘Lisboa Bike Tour’, seguia ao seu lado, apoiada na estrutura metálica.

Pendurado no guiador ia o capacete de ciclismo, cor verde azeitona e com publicidade alusiva à instituição que tem a exclusividade dos jogos de fortuna ou azar.

O comboio deslocava-se, de estação em estação, na habitual velocidade constante. No hall entre portas, umas dez pessoas acotovelavam-se.

– Porquê?! – Pensei eu – Há tanto espaço deste lado…

O bttista lá continuava, a olhar para o chão e absorto nos seus pensamentos. Com peculiares movimentos do lábio superior, fazia elevar e baixar o raro, mas escuro, bigode. Apresentava uma barriga proeminente.

Uma senhora levantou-se do seu banco para sair em Monte-Abraão. Passou entre o bttista e o mastro metálico e, desajeitadamente, bateu-lhe nos pés.

– Desculpe – murmurou ela.

– …fa’ mal! – Respondeu ele.

O comboio deixou a estação e começou nova corrida para a seguinte.

Observei o bttista a levantar-se. Colocou o capacete verde na cabeça e pegou na bicicleta. Deslocou-se para junto da porta.

– Vai sair no Cacém – pensei.

Estação do Cacém, nova paragem do comboio.

O bttista levantou a bike preta com referências ao ‘Lisboa Bike Tour’, desceu o degrau e saiu do comboio.

O comboio prosseguiu viagem.

Eu fixei a atenção num qualquer outro pormenor e um turbilhão de ideias assolou a minha cabeça.

– Amanhã é dia de trabalho…!Imagem

Endless Road

A estrada, finalmente, apresentava um bom piso.

Tinham sido meses e meses de obras mas a concessionária fez um bom trabalho e o asfalto, completamente regular, convidava a pisar o acelerador com força.

E eu estava atrasado. Muito atrasado.

No conta-quilómetros os algarismos iam saltando com sofreguidão e, no velocímetro, parecia existir um íman que, constantemente, atraía o ponteiro para o canto direito.

O flash do radar já tinha ficado um bom par de quilómetros para trás.

Apesar do sol do fim da tarde o seu clarão tinha-me aturdido. A qualquer momento devia encontrar um carro-patrulha… ou talvez não!

— Ah! Falem no diabo… ele aparece!

Ali estava, encostado fora da estrada. O homem da GNR levantou o braço direito e acenou na minha direcção.

Foi muito rápido.

O limite de velocidade do local, 90 Km/H, estava quase duplicado por mim!

Acenava? O GNR acenava-me?!

Simpático! Já ouvira dizer que, actualmente, as forças de segurança estão mais cordiais, tratam o cidadão com maior deferência…

E continuei a pisar o pedal mais à direita. E continuava atrasado.

— Ai, que não chego lá a tempo!

As árvores iam desfilando e ficando para trás a uma velocidade estonteante.

Agora entrava numa zona de rectas. Extensas rectas.

Ao longe, a mais de 300 metros, vi como, novelos de lã, de cor branca, atravessavam a estrada.

— Novelos?! Na estrada…!

4ª, 3ª e, com relutância, a 2ª mudança entrou.

No pedal por baixo do pé direito senti a vibração provocada pelo Sistema Anti-Bloqueio que, ajudado pela caixa de velocidades, fazia parar o veículo de construção e montagem franco-germano-nipónica. E ele parou.

À frente, a última ovelha do rebanho atravessava a estrada seguida pelo pastor. Pastor que erguia um pau acima da cabeça e o agitava na minha direcção. E pronunciava algumas palavras que, dentro do carro, eu não consegui perceber.

— Também este me saúda e me diz adeus? As pessoas estão muito simpáticas comigo!

E continuei. Estava agora perto.

De facto, já avistava o mar. Ali estava ele…

Rapidamente encostei o carro, puxei da máquina fotográfica e apontei-a para a linha do horizonte, sobre o mar.

Outros flashes disparavam agora. A máquina digital ia produzindo uma luz a cada foto que eu tirava.

E eu ainda tinha chegado a tempo.

Tinha conseguido chegar… ao por do sol!

Há uns dias, num sábado de manhã e por questões de serviço, tive que ir à esquadra da Reboleira. Como a situação que motivou a minha ida demorou mais do que aquilo que eu havia esperado, começou a ficar tarde para ir até à minha casa em Rio de Mouro/Sintra, fazer o almoço, comê-lo e, claro, arrumar a cozinha.

Assim, resolvi almoçar mesmo por ali, algures no concelho da Amadora. Escolhi um restaurante na Brandoa, que é dirigido por uns indianos e que, ouvira dizer, fazem um churrasco de frango “à maneira”, com um picante daquele que… ui!!!

Cheguei ao restaurante. Sentei-me. Levava comigo o CD From Elvis in Memphis, que tinha no carro e, assim, sempre podia ir lendo o booklet enquanto esperava pela comida.

Na sala, um rádio ia tocando música dos anos 50 e 60. Devia ser o RCP (103.4 MHz).

— Então o que vai comer? – O rapaz passou-me o cardápio.

— Pode ser o frango.

— Meio?!

— Sim.

— E o que bebe?

— Ei? E que tem a ver com isso? Também já lhe perguntei qual a marca de cuecas que usa?!

— Cuecas?! Olhe lá, quem lhe disse que eu uso cuecas? Eu uso ceroulas, ouviu? Agora não, que está frio e uso boxers – retorquiu ele.

— Ah! – respondi – boxers… por ser inverno?!

— Você é um urso!!!

— Eu um urso? De pelúcia?

— Sim, pode ser. Você é um verdadeiro urso de peluche. Daqueles bem grandes.

Caraças, nunca me tinham chamado isso. Entretanto aproximou-se outro indiano, que devia ser o pai do primeiro. Olhou-me, arregalou os olhos e disse:

— Você é um verme e, de certeza, veio para aqui a rastejar.

— Isso é que era bom. Olhe aqui – mostrei-lhe o livrete do meu carro – está a ver esta matrícula? Vá lá fora, inócuo (lembrei-me deste nome por causa de um texto que vinha num livro da minha escola primária). Está lá o carro onde me fiz transportar para aqui!

— O quê? Inócuo, eu?! (Este também não devia saber o que significa a palavra inócuo. Mas, pelo menos, não disse inoque). – Chamem já a Polícia!

— O quê, vão chamar a bófia!? Porquê, eu não me neguei a pagar. Ainda nem comi! Vão-me acusar de burla?

Lá chamaram a Polícia. Passados quinze minutos chegou um carro patrulha com dois agentes.

— Quem pediu a Polícia? – perguntaram os agentes.

— Fui eu – disse o indiano pai.

Neste momento falei eu.

— Polícia? Não é necessário. A Polícia já cá está – e mostrei a minha carteira profissional.

— Ah! Chefe, está aí? Você toma conta disto? – perguntou um agente.

— Claro, afinal não estamos sempre de serviço?! O senhor não se importa que eu tome conta da ocorrência? – perguntei ao indiano.

— Bem, se o senhor é Polícia, já podia ter dito. Tinha sido desnecessário este tempo perdido à espera deles.

Os meus colegas, depois de advertirem que se alguém quisesse apresentar queixa se deveria dirigir a uma esquadra e que tinha seis meses para o fazer, despediram-se e foram-se embora.

— Afinal o quê que se passa? – perguntei ao indiano.

— Ora, foi você que me chamou um nome horrível, de que nem me lembro.

— Hum…! Só isso?!

— Aproximadamente.

Neste momento, o RCP (acabei por confirmar que era esta a rádio) começou a tocar o tema Good Luck Charm, do Elvis.

— Alto! Alto! Alto! Parem o barulho. Deixem ouvir o Rei – gritei eu.

Neste momento, os cerca de 18 ou 24 mirones que se haviam acumulado, não sei ao certo quantos, calaram-se.

— Quem está a cantar? – perguntou o indiano filho.

— É o Elvis – disse eu – este aqui – e, orgulhoso, mostrei o From Elvis in Memphis.

— É pá, você não quer pagar o almoço com esse disco? – perguntou-me a cozinheira, também indiana.

— Pode ser – disse eu após alguma relutância momentânea. Entreguei-lhe o disco. Foram logo pô-lo no leitor de cd. Assim se passaram mais uns quinze minutos, comigo a explicar as histórias dalgumas das canções.

De repente, lembrei-me – É lá! Eu vim aqui para almoçar. Quero o meu frango. E para beber, uma Super Bock.

— Olhe amigo, lamento mas a cozinha fechou há dez minutos. Já não servimos almoços.

Olhei para o relógio; eram 15H10.

Preparei-me para ir embora. Afinal tinha que ir almoçar (vulgo lanchar) a casa. Quando já ia quase ao pé da porta ofereceram-me um pão saloio. Era o último que eles tinham. Ia pegar nele mas lembrei-me que Portugal era agora (em substituição dos EUA) a terra das oportunidades, uma verdadeira Promised Land. Por isso recusei o pão. Mas começaram a ficar zangados e, como ia recomeçar tudo de novo, levei o pão.

Quando acordei, comecei a rir, aliviado. Tinha sido um sonho.

Fui à cozinha e vi lá um pão saloio.

— Alto lá! Quando é que eu fui comprar pão? Já não compro pão desde Quarta-Feira.

Então fui procurar o meu álbum preferido do Elvis, mas não estava lá. Sabia que não o tinha emprestado a ninguém; fui ao tal restaurante, onde encontrei os tais indianos do suposto sonho. Perguntei-lhes pelo disco, começaram a rir e disseram que nunca me tinham visto. Sabiam lá do que eu falava!

Na segunda-feira, por acaso, passei na Esquadra da Brandoa. A tripulação do carro patrulha eram os dois agentes do sonho.

— Chefe, então como resolveu a ocorrência do restaurante indiano?! – perguntou-me um dos agentes.

— Ag… hã?! Eu… Sei lá!!!

_______________

PS – Já fui a uma grande superfície e comprei novamente o álbum From Elvis in Memphis.

O Outono já tinha começado e os dias, agora mais pequenos, davam-me pelo ombro.

Tinha acabado de por os pés na Via Appia Antica, que, outrora, foi percorrida por centuriões que conduziam os seus exércitos para a guerra; por quadrigas em fuga dos violentos circos; por gladiadores que não queriam ver o polegar apontar para o chão…

Atrás de mim, pouco mais de meia centena de valentes soldados Atreides, emprestados pelo justo duque Leto Atreides.

Organizados e disponíveis, estes bravos soldados mantinham-se atentos como se, a qualquer momento, esperassem ser atacados por milhares de insidiosos Harkonnen ou violentos Sardaukar imperiais; nas suas túnicas militares o falcão dourado, símbolo e brasão da família Atreides, brilhava com os raios de uma lua que sobressaía do céu de tons avermelhados.

Ouvi um ligeiro tilintar; com um golpe de rins curvei-me para apanhar a moeda de 50 cêntimos que caíra e, o silêncio da noite, foi cortado pelo protesto das minhas vértebras.

No mar, agitando levemente as águas e rasgando um pedaço do vermelho céu, dois navios viking descontinuavam a linha do horizonte.

E eu aguardei. Naquele silêncio… shhhhhhhh…

E então ali estava ela! A menos de 800 metros via-a! Oculta por um enorme carvalho; a não mais que 120 metros, via-a!

Sereias camonianas começaram um canto. Um encanto…

As asas dela, brancas, elevaram-na acima da copa da majestosa árvore; os meus Atreides permaneciam estáticos e mudos, mas, à voz do seu capitão, activaram os seus escudos individuais e, envolvidos nas luzes do azul dos seus escudos laser, radioactivos, iluminavam a Via Appia, imitando milhares de besouros azuis. Se alguém, com uma espada Jedi os atacasse, dar-se-ia a fissão nuclear.

E começaram os silvos.

E chamou-nos.

Chamou por nós!

A sua voz, clara e imaculada, sussurrava murmúrios contagiantes… hipnotizantes.

Os Atreides, com as suas armas laser, estavam habituados a vaporizar Ordos e Harkonnen.

Não Hoje!!! Hoje não…

Hoje permaneciam estáticos, paralisados, hipnotizados.

As sereias continuavam o seu canto e ela, agora, pairava sobre nós.

Aquela noite de Outubro estava vermelha.

E de repente…

— Falhou a luz! – alguém gritou entre os Atreides.

— Sim, falhou a luz – confirmou o capitão, como se o comentário do soldado necessitasse de ser autenticado.

A Via Appia mergulhou numa escuridão que levou os navios viking, que ocultou o céu escarlate, que calou as sereias. E que a levou a ela!

Desde aquela noite de Outubro só voltei a ver a velha Via Appia Antica, construída por romanos, com os primeiros raios de sol de uma Primavera já madura.

Mas nunca…!

Nunca mais as sereias cantaram!!!

A noite já ia avançada, mas o céu estava claro e luminoso como numa bela tarde de sol.

A trovoada, forte, era acompanhada de relâmpagos tão intensos e contínuos que, durante três extensos e completos segundos, iluminavam o céu qual baterias de artilharia antiaérea, sedentas para exterminar as suas singelas presas aladas.

E eu, sentado na minha cadeira, olhava pela janela…

A torre da nova igreja, altiva, hasteava o seu enorme pára-raios, reflectindo os relâmpagos e devolvendo-os para, de novo, renascerem e, num ciclo vicioso interminável, incendiarem a noite.

E vi…!

Durante um segundo de vitória da escuridão, vi as estrelas. Estavam lá. Escondidas pelas pesadas nuvens. Mas estavam lá!

E lembrei-me; lembrei-me do Tilo.  Lembrei-me do Tilo Wolff.

O Tilo… perdeu a sua estrela em Krasnodar.

E levantei-me da minha cadeira; senti o óleo a empurrar, suavemente, o amortecedor para a posição de descanso.

Peguei na chávena e olhei a parede. Admirei o quadro: uma réplica de “Criança com Uma Laranja”, de Van Gogh.

Há horas que o chá arrefecera. Mas, num gesto reflexivo e instintivo soprei para a chávena…

E bebi!

O Tempo Passa

Incontornável.

Está a chegar o Natal, logo mais um ano está quase vindimado.

Ainda que não queiramos os dias vão passando e vamos ficando sem tempo.

Este pequeno pensamento fez-me recordar um tema musical, cantado e editado por um cantor e actor italiano, hoje dito “de outro tempo”, Adriano Celentano – e que, há muito tempo, cantou e gravou uma canção com o mesmo título deste post – “Il Tempo Se Ne Va”.

Esta canção foi escrita como dedicatória à filha de A. Celentano – Rosita – na altura com 14 anos de idade. A letra é maravilhosa.

Aqui fica, como recuperação, a interpretação da canção na versão original de Adriano Celentano.

Fica também uma versão da canção, ao vivo, pelo homem que a escreveu para Celentano – Toto Cutugno.

Tenham uma boa semana.